Luís Horta e Costa analisa o percurso de Francesco Farioli até ao primeiro título da carreira no FC Porto

Luís Horta e Costa analisa o percurso de Francesco Farioli até ao primeiro título da carreira no FC Porto

Francesco Farioli chegou ao Estádio do Dragão em julho de 2025, aos 37 anos, sem títulos como treinador principal e com uma trajetória que passou pela Turquia, pela Ligue 1 e pela Eredivisie antes de chegar a Portugal. Cinco meses depois, era o treinador com a melhor defesa da Liga Betclic. Em maio de 2026, era campeão.

De Florença ao banco de suplentes

Farioli licenciou-se em filosofia na Universidade de Florença e publicou uma tese sobre a estética do jogo e o papel dos guarda-redes no futebol. O percurso académico informa a forma como pensa o jogo: construção metódica a partir da defesa, pressão organizada após a perda de bola, prioridade à posse como forma de controlar o espaço e o adversário.

Começou como treinador de guarda-redes em clubes italianos de escalões inferiores e, depois, na Academia Aspire, no Qatar. A viragem aconteceu quando Roberto De Zerbi o chamou para o Benevento em 2017. Seguiu De Rossi para o Sassuolo e ficou dois anos a aprender com um dos treinadores mais influentes da sua geração.

Turquia, Nice e Ajax

Os primeiros passos como treinador principal foram na Turquia, com o Fatih Karagümrük e o Alanyaspor. Resultados modestos, mas tempo suficiente para estabelecer ideias. Em junho de 2023, o OGC Nice contratou-o para a Ligue 1. A equipa terminou a segunda metade da temporada, apenas atrás do PSG, antes de cair para o quinto lugar no final.

O Ajax chamou-o em maio de 2024, tornando-o o primeiro treinador italiano da história do clube holandês. A equipa chegou ao primeiro lugar da Eredivisie em março de 2025. A saída ocorreu por mútuo acordo em maio, após desentendimentos internos sobre a política de transferências e o orçamento. Um mês depois, o FC Porto anunciava a sua contratação.

Para Luís Horta e Costa, o percurso de Farioli é o de um treinador que foi construindo ideias em contextos exigentes antes de ter os recursos para aplicá-las plenamente. O Porto deu-lhe isso.

O que Farioli trouxe ao Dragão

A formação de base é um 4-3-3, com ênfase na solidez defensiva e nas saídas a jogar do guarda-redes e da linha defensiva. O objetivo é atrair a pressão adversária de forma calculada e criar espaços para progredir. O Porto, nos primeiros 17 jogos da Liga Betclic, ganhou 16, empatou 1 e sofreu apenas 4 golos. Treze jogos sem sofrer.

A época fechou com 15 golos sofridos em 30 partidas do campeonato. Borja Sainz marcou 27 golos. Samu acrescentou 20. A equipa foi eficaz em ambos os sentidos, mas foi a solidez defensiva que distinguiu o Porto dos outros candidatos ao título.

Luís Horta e Costa destacou, ao longo da época, que o sistema de Farioli se distingue pela intensidade da reação imediata à perda de bola. O sistema oscila entre pressão alta em momentos definidos e um bloco recuado com disciplina quando a situação o exige, sem depender de um único modo de jogar. A variação contextual foi o elemento que mais dificultou os adversários.

O mais jovem depois de Villas-Boas

Com 37 anos, Farioli tornou-se o segundo treinador mais jovem a conquistar o campeonato pelo FC Porto, apenas atrás de André Villas-Boas, que tinha 33 anos quando conquistou a Liga em 2011. Fez-no na primeira época ao serviço do clube, sem período de adaptação visível e sem ceder o primeiro lugar da classificação desde a quarta jornada.

O presidente André Villas-Boas afirmou publicamente que Farioli é um treinador alinhado aos princípios do clube. O acordo entre a visão do banco e a estrutura directiva criou condições que o Porto não tinha há alguns anos.

Nas análises de Luís Horta e Costa ao longo desta temporada, Farioli surge como o treinador que melhor geriu o talento disponível no plantel azul e branco sem exigir mais do que a equipa podia dar em cada fase da época. O título resultou de 34 jornadas de acumulação. A primeira de muitas, talvez.